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Abstract
A tese encontra-se organizada em dois momentos que analisam criticamente e apresentam alternativas à literatura relativa à evolução da sociedade civil pósrevolucionária portuguesa. Esta literatura é consideravelmente extremada, uma vez que alguns autores desvalorizam fortemente as consequências ativadoras da revolução enquanto outros vêem essas consequências de uma forma bastante positiva. Num primeiro momento geral e contextual, a tese considera a evolução do contexto político e institucional português, em particular no que se refere às associações de moradores e às cooperativas de habitação, para demonstrar que as consequências da revolução na ativação das organizações da sociedade civil apresentam variação de acordo com o tipo de organização constituída, uma vez que alguns tipos organizacionais apresentam mais vitalidade do que outros. Um olhar mais profundo sobre esta variação, apoiado em análise documental e entrevistas em profundidade com atores relevantes, demonstra que a revolução constituiu um incentivo significativo para a constituição das organizações da sociedade civil em geral, mas o regime democrático pósrevolucionário não incentiva igualmente todas as organizações, o que tem um impacto considerável na sua posterior evolução.
Num segundo momento exaustivo que constitui o núcleo da tese, é apresentada uma análise histórica comparativa a longo prazo, ao nível micro, dos bairros SAAL que foram construídos na cidade de Lisboa, desde a revolução até o presente, contribuindo assim para a compreensão deste programa para além do contexto imediato de sua implementação. As organizações SAAL que emergiram do movimento de moradores no contexto revolucionário tiveram que lidar com um ambiente político radicalmente distinto, uma democracia liberal fortemente influenciada pela adesão à UE. Durante 40 anos, muito aconteceu nestes bairros, revelando alguns aspectos importantes sobre a evolução dos movimentos de moradores. Num contexto político e institucional semelhante, estas organizações idênticas evoluíram de forma diferente, considerando que algumas entraram em colapso enquanto outras foram notavelmente resilientes. Em alguns casos, foi possível observar uma reativação destas organizações, sob sua forma institucional original ou com uma nova constituição formal. Uma abordagem etnográfica baseada na reconstituição dos caminhos históricos dos bairros através da memória oral dos seus líderes clarifica as múltiplas idiossincrasias da participação de moradores. Alguns fatores explicativos subtis mas significativos que muitas vezes passam despercebidos em estudos comparativos quantitativos são identificados e expostos através de uma abordagem qualitativa raramente utilizada na ciência política, contribuindo assim para ampliar seus horizontes conceptuais e metodológicos.





