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Abstract
A historiografia da antropologia há muito que não é uma simples auxiliar da produção do conhecimento antropológico, pois a trajetória histórica da disciplina encerra uma constelação de significados em si mesma, o que levou inclusive a uma afirmação crescente desse subcampo disciplinar como um domínio de especialidade suscetível de exigir competências e saberes próprios, ainda que sem excluir contributos por parte dos mais diversos investigadores, antropólogos mas não só, interessados nesse passado por razões várias. Aliás, essa afirmação contribuiu também, sobretudo nos Estados Unidos da América mas com repercussões na comunidade internacional, para dar mais centralidade à historiografia da antropologia no cômputo geral das reflexões da antropologia sobre si mesma. A necessidade de compreensão (agudizada em particular após o período pós-colonial) da própria antropologia como possuindo uma história, uma história de complexa construção intelectual e sociopolítica, relativa a uma tradição entre as mais vibrantes e polémicas no seio das humanidades e das ciências sociais, gerou uma especialização assaz diversificada no tocante às abordagens do passado disciplinar, com questões que ultrapassam largamente as questões "clássicas" sobre as origens das ideias dos grandes antropólogos das grandes tradições nacionais. Sobretudo a partir do impacto da obra de George W. Stocking, Jr., a identificação dos contextos em que elas são produzidas ganhou densidades imprevistas, o mesmo acontecendo com outras questões: como se modificam (ou não) as ideias antropológicas; quais as trajetórias intelectuais (e até mesmo pessoais) dos sujeitos que fazem o trabalho de campo; como se avalia devidamente a rede de atores envolvidos no campo etnográfico, incluindo os interlocutores nativos ou indígenas, esse eterno Outro que persiste em assombrar a disciplina. Qual(is) forma(s) como os profissionais que decifram o Outro olham para si quando o assunto é a construção histórica do seu próprio campo de conhecimento? Mais concretamente, entendemos aqui por profissionais da alteridade todos aqueles que, seguindo a máxima de que the past is a foreign country, se debruçam sobre o passado da antropologia como algo a visitar, a revisitar e, sobretudo, a compreender de uma forma que seja significativa no nosso tempo. A presente tese será, antes de tudo, uma contribuição para identificar diferentes respostas que têm vindo a ser dadas nessa busca, nessa tentativa de manter, recuperar e reinventar vínculos com os predecessores e seus textos. A presente tese será, antes de tudo, uma contribuição para identificar diferentes respostas que têm vindo a ser dadas nessa busca, nessa tentativa de manter, recuperar e reinventar vínculos com os predecessores e seus textos.
Essa variedade de olhares historiográficos por sua vez recai sobre uma outra ainda maior: a dos olhares antropológicos do passado. Uma dilatada conjuntura de produção etnográfica e teórica, desenvolvida em diferentes contextos, por etnógrafos e antropólogos com diferentes trajetórias académicas e de vida e em variadas partes do mundo, nos leva a concluir que a diversidade é de facto a primeira, a mais transversal das "tradições" quando nos referimos à história da antropologia, como se todos concordassem quanto a estar em desacordo. A essa diversidade somam-se os diálogos do passado com outras ciências sociais e humanas, o que levou muitos dos seus profissionais - não indiferentes ao seu próprio contexto disciplinar - a ponderarem as implicações desses intercâmbios privilegiados, ora com a sociologia, ora com a arqueologia, a história das religiões, o folclore, a filosofia, etc.





