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Abstract
No quadro da relevância de uma formação de professores de português engajada com a literatura, esta tese visa compreender como está a ser arquitetada, em Portugal, a Licenciatura em Educação Básica (LEB), nomeadamente enquanto formadora de educadores literários no Ensino Básico. Para responder à pergunta de investigação que norteou o presente trabalho, procedeu-se, primeiramente, a uma revisão sistemática da literatura, no sentido de se traçar o perfil de educador literário que, segundo os especialistas, se esperará alcançar à saída da Licenciatura em análise.
Ora, segundo autores vários, como Calvino (1993), para preparar o formando, futuro professor, para ser aquilo a que chamaremos, ao longo desta pesquisa, ‘especialista’ serão impreteríveis não só o contacto com os cânones e com o saber declarativo de índole literária, mas também com conhecimentos sobre o processo de leitura. Paralelamente, a LEB será oportunidade para a efetivação do próprio professor, em formação, como ‘leitor’, ou seja, para lhe inculcar o gosto pela leitura literária (Jouve, 2015) e, assim, progressivamente, fomentar o seu hábito leitor. Prever-se-á, ainda, a educação deste profissional enquanto ‘mediador’ (Yunes, 2014), quer dizer, aquele que vai construir pontes de encantamento entre os livros e os alunos, envolvendo estes últimos em momentos de deslumbramento literário. Como sabemos, no Ensino Básico, “Um professor tem muitas maneiras de usar um livro como meio para formar o aluno-leitor, alguém que gosta de ler” (Barbosa & Sousa, 1998, p. 91), mas isso só ocorrerá se a LEB impregnar o professor, em formação, das competências necessárias para tal valência: saber despertar o aluno para o livro.
Com o objetivo de investigar como estão, de facto, a ser formados, para a literatura, os professores do Ensino Básico no nosso país procedeu-se a um estudo de natureza mista (Morais & Neves, 2007), que envolveu tanto a recolha documental - 27 Planos de Estudo, 89 Fichas de Unidade Curricular e 11 Instrumentos de Avaliação -, como inquirição a 7 professores de literatura e a 121 alunos da LEB.
Concluiu-se, pela análise dos dados, que o modelo de professor, enquanto educador literário que se tem privilegiado nas LEB, em análise, é, por excelência, o de um ‘teórico’ aprimorado na área literária. Poderá deduzir-se que, na LEB, se toma o sujeito, em formação, mais, como ‘professor-especialista’ e, menos, como ‘professor-leitor’ porque predominam, ao longo do currículo de formação, os objetivos formativos voltados para adquirir conhecimentos, quer literários quer sobre a língua. Na verdade, apesar de os professores e os alunos inquiridos defenderem que a formação literária do professor de português deve contribuir, primordialmente, para formar professores-leitores, verifica-se, pela triangulação dos dados, que as LEB, em estudo, atribuem, na prática, menor lugar para a aquisição do gosto pela leitura e para o fomento de hábitos leitores, comparativamente com o espaço curricular para a aquisição de conhecimentos literários. Além disso, a formação não estará a contribuir para a edificação de um professor-mediador literário apto a cativar leitores. Estas duas dimensões, professor-leitor e professor-mediador, são relevantes, pois acreditamos que, para que o professor, no ensino básico, se coloque entre o livro e o seu leitor, é absolutamente essencial que, primeiro, os livros sejam um seu objeto íntimo, e só, posteriormente, sejam veiculo de construção de comunidades leitoras.
Consideramos que a construção destas comunidades leitoras é fulcral, pois, como refere Pereira (2008), “uma comunidade de leitores, poderá transformar-se numa cidade de leitores, numa região de leitores, num país de leitores, num mundo de leitores” (p. 50) e um mundo de leitores parece-nos, de facto, a grande missão dos educadores literários. Para potenciar o desenvolvimento do professor de português para a sua faceta literária, que, nesta tese, se declara que deverá ser “trifacetada” – especialista-leitor-mediador-, apresentamos, a terminar, algumas sugestões sustentadas para a prossecução de tal perfil, tais como: alterar o tipo de avaliação adotada nas UC onde a literatura é objeto, aumentar o número de UC de didática ao longo da LEB, promover práticas de leitura mais regulares, seja nas chamadas “comunidades de leitura” ou “círculos de leitura”, conceber mais parcerias com as escolas básicas para desenvolver atividades experimentais de promoção da leitura, entre outras.





