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Abstract
O objeto de estudo deste trabalho focaliza-se na caraterização e análise das festividades ocorridas em Ponte de Lima entre a segunda metade do século XVII e primeira metade de oitocentos. Neste sentido, ao propormo-nos compreender todas estas manifestações de júbilo, catarse e anamnese, centramo-nos na Matriz, na igreja dos terceiros de São Francisco de Ponte de Lima e no município da vila como principais núcleos promotores das solenidades festivas que quebravam a rotina quotidiana dos limianos no período em estudo.
A igreja da vila albergava no seu interior uma variedade de instituições confraternais, que para além de a dotarem de um rico património artístico e cultural a transformavam num palco para a atuação de muitas manifestações festivas. O culto da Virgem Maria constituía uma sublinhada parte destas festas sob várias invocações como a Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Expectação, Nossa Senhora da Assunção e Nossa Senhora do Carmo. Embora, algumas destas festividades se ancorassem somente em manifestações puramente devocionais arredando dos seus programas a componente lúdica-profana, outras aliavam o sagrado ao profano. As crenças do povo, imbuídas de rituais e gestos, tinham nesses momentos festivos um peso significativo dando-lhes uma maior consistência e vitalidade.
Não menos relevante era a igreja dos terceiros de São Francisco que projetava para o seu exterior, e à semelhança da Matriz, diversas manifestações festivas, como a procissão de Cinzas que abria o período quaresmal, momento de grande simbolismo para os devotos católicos. Para a organização deste préstito, os mesários reuniam todos os esforços para que esta ocasião brilhasse e não tivesse menos visibilidade que as restantes festas organizadas pelas outras instituições. Mas, teriam os terceiros da vila outras intenções com esta ocasião festiva? A resposta a esta questão foi também esclarecida ao longo deste trabalho.
O município de Ponte de Lima preocupava-se e responsabilizava-se pela organização da festa do “Corpus Christi”, que, de acordo com o calendário lunar, inseria-se no conjunto de festividades com data móvel. Esta ocasião engrandecia a vila ao culminar com a magnificente e esplendorosa procissão que servia de paradigma a todas as outras. Embora a sua realização tivesse a edilidade e a igreja da vila como principais impulsionadoras, todas as associações de mesteres, confrarias e particulares davam o seu contributo. Desta forma, este préstito espelhava a realidade quotidiana limiana, as crenças das suas gentes, a vida social, política, costumes e tradições.
No entanto, não eram somente estas festas realizadas em consonância com o ciclo das estações do ano que transformavam a vila alto-minhota, também as ligadas ao ciclo biológico da família reinante: nascimentos, casamentos, mortes, bem como as de caráter político, visíveis na primeira metade do século XIX proporcionavam tempos de regozijo aos habitantes de Ponte de Lima.
Era nestes três espaços principais que se exteriorizava este caleidoscópio de festas, embora autónomos uns dos outros, conectavam-se nestas ocasiões para poderem dar o brilho que pretendiam às suas festividades. A câmara da vila como intermediária entre o poder central e os seus munícipes desempenhava nestes momentos um papel norteador e controlador da sociedade limiana. Estas festas não só legitimavam o poder régio e local, mas também funcionavam como ocasiões para os mais ambiciosos afirmarem os seus poderes e interesses.
Estas comemorações festivas, que envolviam a sociedade como um todo, foram ao longo do período em estudo alvo de alterações, provocadas pela nova conjuntura política e social sentida sobretudo nos finais do século XVIII e primeira metade de oitocentos.





