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Abstract
O presente trabalho tem por objectivo investigar um fenómeno específico do campo da Linguística, o Bilinguismo, inserindo-se concretamente na área de estudo de Language Attrition, a qual, por ausência de investigação neste domínio e consequente falta de terminologia portuguesa correspondente, é aqui baptizada de ‘erosão linguística’.
Com base num corpus de transcrições de entrevistas orais, conduzidas no âmbito do projecto de investigação POCI/LIN/59780/2004, o estudo parte de uma questão central da área de investigação do Bilinguismo: é possível perdermos a competência de uma língua que adquirimos de forma natural durante a infância?
O grupo sob investigação é constituído por 32 falantes, que cresceram num país de expressão alemã, tendo adquirido o alemão e o português naturalmente em fase precoce da infância. Todos estes falantes vieram viver para Portugal, o país natal dos seus pais, em determinada altura da sua vida, mudando de ambiente linguístico dominante. O alemão, que durante a emigração era a língua predominantemente utilizada, passa então a língua não dominante, ocorrendo uma redução considerável de input desta língua. Esta redução no uso da língua alemã constitui o ponto de partida da presente análise, uma vez que permite examinar se a privação de contacto diário com a segunda língua leva à ocorrência de fenómenos de variação linguística. Apresentando diferenças em relação a três factores cruciais - a idade de regresso, o tempo de estada em Portugal e a frequência de contacto com o alemão desde a mudança de país - o grupo sob investigação subdivide-se em quatro subgrupos: 1) falantes que regressaram a Portugal há pouco tempo e/ou mantêm contacto frequente com o alemão; 2) falantes que vieram para Portugal com idade igual ou superior aos doze anos e que têm um contacto muito reduzido com a sua segunda língua; 3) falantes que vieram para Portugal na infância (até aos onze anos de idade), tendo desde então um input muito reduzido do alemão; 4) falantes que, tendo deixado o país de emigração em fase precoce da infância (entre os cinco e os nove anos de idade), não conseguiram expressar-se em alemão, aparentando ter perdido a sua segunda língua.
Tendo por base a concepção racionalista da faculdade linguística inerente à gramática generativa, o estudo incide essencialmente sobre o domínio sintáctico. Pretende-se testar a vulnerabilidade de determinados aspectos sintácticos do alemão face aos factores extralinguísticos que poderão condicionar a ocorrência de erosão. Neste sentido, é analisada a proficiência dos falantes em relação às regras de posicionamento verbal e à expressão do sujeito e do objecto tópico. Serão ainda discutidos outros fenómenos sintácticos observados nos registos de alguns falantes, como processos de adjunção e alterações da ordem da frase que não respeitam as condicionantes sintácticas e pragmáticas do alemão.
Revelando uma estreita relação entre os factores ‘idade de perda/redução de input’, ‘frequência de contacto com a segunda língua’ e ‘tempo de estada em Portugal’, os dados atestam diferentes graus de vulnerabilidade dos diversos domínios sintácticos analisados. Ao mesmo tempo sugerem que os fenómenos de erosão observados são consequência de debilidades existentes a nível do controlo da língua não usada, evidenciadas na incapacidade em inibir totalmente a língua dominante, o português, no momento de processamento do alemão.





